segunda-feira, 11 de maio de 2015

Prelúdios do surf contemporâneo


Prelúdio é aquilo que antecipa os fatos, os avós dos nossos tempos. A forma como eu surfo, o que eu visto ou vejo o mundo é o resultado de experiências remotas. O novo só acontece hoje porque um louco gritou aquelas idéias um dia, em alguma praça, a muito tempo...




No ano de 1891 morria o Rei Kalākaua, o ultimo Grande Chefe havaiano, quem fez a transição aos tempos modernos, um rei respeitado por suas habilidades no mar e na política. Era alvorada no arquipélago polinésio, e a paisagem começava a mudar, as tradições havaianas eram esquecidas no esforço de entrar naquele mundo novo.


Imagine as transformações do início do século XX, tempos de grandes tecnologias, da indústria, das máquinas, do petróleo e do crescimento populacional, das guerras mundiais; enfim, os tempos modernos. Neste contexto, o Havaí se tornava parte do território dos Estados Unidos da América (EUA), com uma posição estratégica, geopolítica e economicamente, transformando-se em um dos principais entrepostos do Pacífico. Por ali paravam aventureiros, mercadores e quem sabe até aqueles caçadores da mítica  baleia Moby Dick. 

Chegava o ano de 1900 e nas redondezas de praias como Waikiki, uma nova geração atraía a atenção dos visitantes, o surf e o gingado nativo renasciam como resistem as raízes depois de uma queimada. A cultura pagã havaiana passava a ser reconhecida por sua beleza exótica. 

Os surfistas que precederam todos nós eram uma mistura dos atletas ocidentais com forte influência dos costumes havaianos, um tipo que a mídia da época gostava de mostrar, jovens simpáticos e aventureiros com pele a bronzeada. Esta geração criada sobre os modos ocidentais, eram nativos havaianos, mestiços hapahaole ou haoles estrangeiros que viviam entre os locais, divertindo e se confraternizando junto ao mar. O surf havia quase desaparecido durante a última década do século XIX, mas aquela geração voltava seus interesses a certos aspectos de uma cultura a beira-mar, ficando conhecidos como os beach boys


O esporte dos extintos reis havaianos exercia uma enorme atração turistica, mesmo sendo uma décima parte do que fora o esporte nos tempos áureos ancestrais.


O mais famoso dessa geração de beach boys foi George Freenth; primeiro grande representante do estilo de vida havaiano, que se tornou referência na Califórnia e indiretamente para o resto do mundo. George Douglas Freeth era um dos garotos gente boa,  que circulava por Waikiki no começo do Século XX. Nascido em na ilha havaiana de Oahu em 1883, era considerado um hapahaole, com mãe havaiana e pai inglês, Freeth era um jovem bem educado e com espírito destemido. Participava dos clubes de natação locais e se destacava também como mergulhador. Em 1900 começou a surfar e praticar remadas nas canoas vaka moana, naquele que foi o renascimento das tradições náuticas havaianas. Este era o espírito havaiano, apaixonado não apenas pelo surf e pelo esporte, mas pelo oceano e a vida beira-mar.


A vida daquele menino local mudaria definitivamente ao ser convidado para fazer demonstrações de surf pela costa da California, outra região norte-americana com potencial turístico semelhantes ao Havaí.  A chegada de Freeth na Califórnia em julho de 1907, mudou definitivamente a história da região, surfando nas praias de Redondo e Venice. Tornou-se celebridade local, mas nunca juntou dinheiro. Talvez este não fosse o ideal de um nativo polinésio, que usava sua energia para treinar e comandar um corpo de salva-vidas nas antigas habilidades havaianas: a nadar entre as ondas, usar as correntes da costa a seu favor, usar pranchas de surf e outras técnicas. Na época, o salvamento era um grande risco até para o salva vidas, dando grande prestígio a Freth por toda comunidade local. 


Pouco se conhece da história deste personagem do surf, mas este foi um importante preludio do esporte que conhecemos hoje. Em julho de 1910 Freeth ganhou a medalha de honra do congresso nacional norte-americano, o maior reconhecimento que um civil pode receber do governo, pelo salvamento da tripulação de um navio japonês em um dia com enormes ondas. Ainda hoje, o surf carrega lá no fundo de sua essência uma imagem relacionada ao estilo beach boy.

O surfistas que plantou a primeira semente do surf moderno morreu com um grande mérito entre salva-vidas de todo o mundo, mesmo que os primeiros impactos tenham sido locais, Freth encontrou raízes para que a cultura polinésia pudesse germinar em solos continentais.

Freth provavelmente nunca soube dos frutos de suas ações.
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