A mais de 100 anos, aos olhos do mundo ocidental o surf era uma atividade exótica de povos primitivos dos cafundós do mundo. Hoje o esporte faz parte da cultura moderna por um esforço de grandes entusiastas. Os grandes protagonistas desta historia são povos tradicionais das águas do Pacífico, mas os personagens da transição do surf ancestral para os nossos dias, também devem ser reverenciados por manterem esta cultura viva.
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Mar Brava, by Jose Higuera |
Hume Ford era um norte americano conhecido por suas crônicas em jornais de Nova York. Essencialmente um aventureiro, viajou aos confins Ásia, acompanhou a construção da
famosa ferrovia transiberiana, que atravessa a Rússia e em 1907, a caminho de
novas aventuras na Oceania, aportou no arquipélago havaiano. Logo se deparou
com a cultura polinésia e suas peculiaridades, um tesouro escondido para qualquer escritor.
A
primeira vista, o surf era dos aspectos mais fantásticos daquele mundo perdido,
nunca visto antes em outro lugar, conectava-se a um estilo de vida e histórias
antigas.
Em suas primeiras tentativas de
surfar sozinho se frustrou, com grande dificuldade de manipular a enorme prancha de madeira maciça nas ondas de Waikiki, e logo um nativo apareceu para ajudar. Era George Freeth, um beach boy que deu dicas muito uteis para deslizar uma onda. Neste dia, o surfista local e o ilustre viajante norte americano começaram uma amizade. Neste contexto, uma comissão especial do congresso dos EUA visitava
o arquipélago para avaliar se o Havaí estava pronto para se tornar um Estado e Hume
Ford usou sua influência para colocar seu amigo Freeth como guia da expedição.
Aproveitando a boa repercussão junto aos representantes do governo, articulou
uma visita do surfista para fazer demonstrações daquele esporte na Califórnia,
fato que revolucionou tanto as técnicas de salva-vidas nos EUA, como transformou aquele Estado em grande representante do esporte.
Fundação do primeiro clube de surf e de canoa outrigger _ Após uma breve estadia na
Austrália e outros portos do Pacífico, Hume Ford se deu conta de que aquele era
o último resquício de um esporte sagrado e outros conhecimentos riquíssimos, comum aos povos polinésios.
Daí por diante, focou muito do seu trabalho na valorização do surf, da canoa vaka moana e toda aquela cultura tradicional. Voltando
ao arquipélago em 1908, articulou junto a locais influentes, donos de hotéis,
além da Rainha Emma, que cedeu uma área para construção do Outrigger Canoe and Surfboard
Club, o primeiro clube para preservar e incentivar o surf e a tradicional
canoa. Além de agitar a cena do surf
havaiano, muitos norte americanos tiveram seu primeiro contato com o esporte
pelas matérias que Ford escrevia para revistas.
Um laboratório de convivência inter-racial - A missão de Hume Ford teve ainda
outro incentivo, quando conheceu o famoso escritor Jack London, que passava
pelo Havaí a caminho da Oceania. London já era um escritor consagrado nos EUA e
possuía e possuía ideias comunistas muito particulares, moldadas por intensas
experiências junto ao mar. Os dois escritores tiveram longas conversas e viam o
Havaí como um exemplo de lugar onde diversas raças e etnias conviviam
harmonicamente. Para ambos, aquilo parecia uma espécie de comunismo espontâneo. Incentivado pelo ilustre colega e por outros entusiastas, Ford passou a encarar sua aventura como uma missão.
O primeiro esforço de unir os povos do Pacífico - Daí por diante, Hume Ford passou a usar suas influências e esforços unir as
ilhas do Pacífico em uma convenção que ele batizou de Pan-Pacific Union, com sede em Honolulu. Entre 1915 e 1937 a
convenção buscou promover a paz e a valorização da cultura polinésia entre as
ilhas do Pacífico.
Em 1945 Hume Ford
morreu aos 77 anos na ilha de O'ahu, sempre lutando para preservar um pouco a cultura e o estilo de vida tipicamente polinésio. Sabe como é, amor a primeira vista...