quinta-feira, 30 de agosto de 2012

O Surf Moderno e o Ancestral


Surf em pranchas Alaia e busca da identidade perdida.
Para quem não sabe, as pranchas de surf de madeira estão de volta. Elas voltaram de forma tímida nos anos 80 e 90 e agora estão se tornando comuns, mas ainda não populares. Alguns shapers-marceneiros começaram a construir modelos novos com técnicas e materiais modernos, criando uma rede de adeptos em todo o mundo. Talvez esta não seja uma tendência de mercado, mas o movimento tem crescido principalmente nas garagens e oficinas de surfistas amadores. Neste caso, amadores no sentido de pessoas que gostam muito de surf, pois a construção destas pranchas pode não ser coisa para principiantes, afinal são muito mais difíceis e artesanais do que as pranchas com blocos de poliuretano ou similares. Por este motivo também, preço de uma prancha de madeira pronta, pode ser muito maior do que a média das pranchas disponíveis no mercado.


As pranchas de surf de madeira ligam dois tempos, um muito antigo, repleto de técnicas e conhecimentos ancestrais e passados oralmente para a construção de pranchas, canoas e pequenas embarcações. Outra é a época atual, com grande acúmulo de tecnologias e designs avançados.Desta forma, um shaper de prancha de madeira precisa se informar tanto sobre as resinas e colas certas para o tipo de madeira, o design ideal para o modelo, como as técnicas e conhecimentos tradicionais, manhas de marceneiros, madeireiros e construtores de embarcações ancestrais. Mas o que motiva uma pessoa à construção de uma prancha em madeira, diante de um mercado tão rico em opções de pranchas? 

Primeiramente, comprar ou construir uma prancha de madeira não significa abdicar-se de surfar com pranchinhas de espuma e todas as vantagens das novas tecnologias, isto é, as pranchas de madeira costumam ser especiais para condições de mar específicas, de acordo com o modelo que foi projetada. As novas tecnologias de construção naval unidas com técnicas, materiais e designs de confecção das pranchas modernas permitem conceber modelos com desempenho muito próximo ao das pranchinhas atuais, surfando ondas grandes ou pequenas, cavadas ou gordas, com manobras ou clássico, de acordo com o seu tipo de surf.

Prancha de madeira tipo Hollow: primeiras inovações.
Outro ensejo é pelo fato de que todo surfista experiente um dia passa se interessar por outras formas de surf, faz parte experimentar outras modalidades, seja um longboard,SUP, Kite surf, ou em casos especiais aprender a pescar, velejar ou remar canoas em alto mar. Isto porque o surf não é um esporte isolado, mas uma atividade junto ao mar que não se limita a descer ondas. Para evoluir no esporte é necessário saber de vento, maré, meteorologia, hidrodinâmica, etc, e por isso, nada mais natural do que conhecer outras modalidades e sensações. As pranchas de madeira oferecem uma experiência única neste sentido, alguns projetos de prancha exigem destrezas de um caiçara em sua canoa ou um antigo polinésio.Finalmente, a vantagem da prancha de madeira é que,se bem construída e cuidada pode durar anos ou décadas, por isso devem ser muito bem feitas, pois não são descartáveis.

Novos modelos de prancha de madeira tipo Hollow: o ancestral e o novo.
Mas antes de empreender um projeto destes, ou despender um dinheiro para encomendar uma prancha de madeira, vale a pena pesquisar sobre os modelos, técnicas, etc. Existem as pranchas ancient que são cópias ou releituras das antigas alaias (tábuas, no idioma dos antigos havaianos), feitas de madeira maciça; hollowboards (prancha oca), com um esqueleto interno semelhante aos barcos, e uma infinidade de modelos híbridos, que unem técnicas novas e permitem desempenhos mais próximos ao estilo de surf moderno. Talvez, um dos melhores endereços para iniciar uma pesquisa sobre pranchas de madeira é o blog australiano Wooden Surfboards, onde shapers do mundo inteiro postam fotos e relatos de suas criações. 

Wooden Surfboard Day, em Gold Coast AUS, 
reúne shapers e surfistas construtores de prancha de madeira
Os próximos posts do Madeira & Água irão resgatar informações e técnicas da construção de pranchas de surf de madeira, assim como história e sabedorias dos artesãos de pequenas embarcações tradicionais. Acompanhem!

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Quilhas: princípios do design




  O design das quilhas é um dos elementos mais sensuais das pranchas de surf, tal como um corpo feminino, possuem formatos harmônicos e cheios de curvas. Em termos práticos elas definem do estilo de surf e possibilitam controle da prancha em diversas situações, como em ondas grandes ou em manobras extremas.
Com a função de absorver a energia do fluxo de água, dando direção e agregando pressão e velocidade, os princípios hidrodinâmicos das quilhas são complexos, mas não se preocupe, quebramos a cabeça para explicar o melhor possível o que os peixes já nascem sabendo. 
Em função de seu desenho, as quilhas podem melhorar ou comprometer o funcionamento de uma prancha de surf e por isto é necessário conhecer as variáveis que influenciam o desempenho do surfista.Atualmente temos uma infinidade de materiais, tecnologias e designs, e podemos fazer a escolha do melhor equipamento compreendendo os princípios contidos em cada desenho. 

Os formatos das quilhas e seus princípios 

Variáveis no desenho da quilha: template, base, ponta , area, profundidade, inclinação e foil.

Pensando o formato básico da quilha como um triângulo, a parte da frente onde fica a curvatura, chama-se template. A parte de baixo é a base, onde medimos o comprimento da quilha. Juntos, template e base formam a área da quilha. Quanto maior a área, mais superfície a quilha terá para empurrar a prancha contra a água e consequentemente, maior drive (direção) terá a prancha. Quilhas com base comprida e maior área costumam desenhar arcos mais longos na onda, isto é, curvas mais abertas e com maior velocidade na cavada. 
Para longborders que surfam ondas grandes ou rápidas, pessoas pesadas, ou que fazem manobras com muita velocidade, exercendo maior a pressão sobre a prancha, aconselha-se as quilhas maiores (com mais área). 

Quilhas com bastante área de contato 
O bico da quilha (ponta ou tip) é a área oposta a base e segue o mesmo princípio, quanto mais área, maior o drive (direção)e a impulsão. As quilhas que possuem a ponta com maior área proporcionam mais impulsão, velocidade e segurança, mas ficam mais presas nas curvas e manobras. Quanto mais estreita a ponta, maior agilidade, porém menor impulsão.Para manobras que jogam muita água ou rasgadas derrapando a prancha, o ideal são quilhas com base comprida e ponta fina. 

Quilhas mais área nas pontas 

Existe outro fator decisivo para o controle da prancha: a profundidade (depth).É o quanto a quilha penetra dentro da água. Se a profundidade da quilha for maior, obtemos segurança e o comando da prancha em uma cavada ou mudança de direção. Por outro lado, maior segurança nas curvas significa atrito com a água, isto é, perda de velocidade. Quanto menor a profundidade, mais velocidade e mais facilmente a prancha irá derrapar (desgarrar). 

Quilhas com maior profundidade

A profundidade está relacionada ou o ângulo de curvatura da quilha. O ângulo é medido entre a linha vertical que parte do centro da base, até o ponto mais alto da quilha. Quanto maior a inclinação do outline da quilha (para trás), mais longo é o arco da curva nas manobras e maior velocidade em linha reta. Quanto menor a inclinação, mais facilidade terá a prancha para pivotear e inverter a direção. 

Quilhas com menor ângulo de inclinação 

Outro aspecto levado pouco em consideração é o chamado foil. Esta é a seção hidrodinâmica da quilha no sentido longitudinal, ou melhor, é a barriga da quilha. O foil afeta a forma como a prancha se move dentro d'água, gerando tanto impulsão (lift), quanto arrasto (drag). Normalmente as quilhas centrais possuem foil equilibrado, enquanto as laterais possuem foil somente do lado de fora. Atualmente as quilhas novas vêm explorando mais os benefícios hidrodinâmicos deste componente. 

Efeitos do foil das quilhas na forma de surfar

Finalmente, a capacidade de flexão e deflexão da quilha é uma variável a serem consideradas. Da mesma maneira que um arco e flecha, quanto maior a flexão e mais rápida a deflexão, maior a impulsão. Para estes efeitos o material da quilha é essencial, pois materiais como o plástico possuem muita flexão e pouca deflexão, proporcionando pouca impulsão, enquanto o carbono possui ótima deflexão, porém pouca flexão, o que também restringe a impulsão.O material que possui maior grau de flexão e também de deflexão é a fibra de vidro, que consequentemente possui maior impulsão entre os materiais atualmente utilizados.Existem ainda outros materiais alternativos como a madeira, que normalmente recebem tratamento com resina e fibra de vidro e suas propriedades de flexão dependem o tipo de madeira (mais maleável ou maciça). 

Como o desenho das quilhas influenciam o surf 

As quilhas com maior área possuem maior drive, isto é, são mais rápidas e seguras na cavada da onda, mas fazem arcos mais largos e curvas abertas, ideais para um surf mais clássico e linear. As quilhas com drive são aquelas com base mais comprida, com bicos com maior área ou quilhas mais profundas e curvadas. 


O pivot é o tamanho do arco para fazer um retorno de 180º na linha da onda, conhecido como o turning. Um arco mais fechado e curto está relacionado com quilhas que possuem menor área, maior profundidade, menor curvatura e foil interno (no caso de quilhas laterais). Um arco longo (menos pivot) são características de quilhas com maior área ou com curvatura maior. 



Outro efeito das quilhas na maneira de surfar é a aderência da prancha na onda. Quanto maior o hold maior a aderência e segurança nas cavadas, mas em excesso dificulta as manobras. Quilhas menores, com menor profundidade e menor área (principalmente no bico) proporcionam menos hold


Tendências no design de quilhas 


Atualmente existem tendências de acordo com o tamanho das ondas e manobras dos surfistas da nossa época. Dessa forma, para escolher a melhor quilha, o surfista ou shapper deve levar em consideração um conjunto de fatores, como tipo de prancha, tamanho e peso do surfista, a onda que vai ser surfada, o estilo de surf (considerando se o surfista faz muitas manobras, ou gosta de seguir a linha da onda), etc. Cada variável da quilha trará um efeito. 

 Jimmi Cane

Para ondas pequenas costuma-se usar quilhas de base larga, ponta fina (com menos área), menor profundidade e inclinação. Assim, obtém-se maior tração (drive) - em função da base larga - a água jorra com mais facilidade - em função da ponta mais fina – a prancha derrapa sem desgarrar - em função da menor profundidade e pivotear mais facilmente, graças à menor inclinação do outline

Foto: Hank

Já para ondas maiores, as quilhas podem ter a base um pouco mais estreita - para proporcionar mais estabilidade nas curvas - ponta com área levemente maior - para obter maior impulsão - profundidade proporcionalmente maior com relação ao tamanho e a força das ondas - e inclinação maior, para garantir um arco mais fluído nas curvas, como pede o surf contemporâneo.

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

A quarta revolução das quilhas

Kelly Slater surfando Teahupoo com as novas quadriquilhas

Os últimos posts do blog Madeira & Água vêm fazendo um histórico do surgimento e evolução das quilhas. Desde os primeiros estabilizadores inventados por Tom Blake no final da década de 1930, que inspiraram os modelos de pranchas de Bob Simmon com uma ou duas quilhas que ajudariam surfistas a conquistarem as primeiras ondas maiores que 10 pés na década de 1950, ou o design das velozes TunFin (quilhas rabo de atum) de George Greennough na década de 1960 e profissionalização dos shapers nos anos 70, consagrando as pranchinhas de duas quilhas, graças ao campeão Mark Richards e finalmente a Thruster com três quilhas na década de 1980, que colocaram o nome de Simon Anderson para a história moderna do esporte. 


Mas o que faz um modelo ou design de prancha perseverar e outros parecerem experiências bizarras? Vantagens técnicas, sorte, perseverança dos shappers, ou o marketing das marcas de surf? A invenção das pranchas de quatro quilhas no início da década de 1980, o seu esquecimento e a volta triunfal nos últimos anos trazem esta duvida. Nos anos 70 havia uma a disputa dentro e fora do mar para encontrar o melhor design de pranchas,até a febre as pranchas de 3 quilhas entrarem em cena no início da década de 1980, tornando-se unanimidade. No entanto, outro modelo de prancha aparecia nos campeonatos de forma tímida e despretensiosa, as quadriquilhas ou quad fin

Bocão disputando campeonato com quatro quilhas no começo dos anos 80

O primeiro shapper a construir uma prancha com quatro quilhas não dá para saber quem foi, mas o brasileiro Ricardo Bocão foi sem dúvida o pioneiro da década de 1980 que desenvolveu pranchas de quatro quilhas e disputou campeonatos ao redor do mundo com elas, comprovadamente por fotos e matérias em revistas de surf (normalmente ironizando o “excesso” de quilhas). Mas o mérito foi para outro shapper e surfista profissional, o australiano Glenn Winton, conhecido como Mr X, famoso por seu estilo de surfar e por aparecer na final do mundial na década de 80 com uma quad fin, ganhou fama. Acho que já ouvi esta história antes, afinal quem inventou o avião foi Santos Dumon ou os irmão Wright? Todos dizem Wright, mas sabemos bem que foi Santos. O que se sabe é que Ricardo Bocão desenvolveu o primeiro modelo 1981, inspirado pela evolução da Thruster, passando a usar as quatro quilhas em campeonatos até 1983. O fato é que nem Bocão nem Glenn Winton conseguiram vender a ideia.

Bruce Mckee desenvolvendo quad fin nos anos 80 e 90.

Ao longo dos anos 80 e 90 outros shappers foram aperfeiçoando e desenvolvendo o modelo quadfin, mas sem muito sucesso. Na década de 1990, surfistas como Tom Curren e Tom Carrol, apareceram surfando quadriquilhas e elogiando a performance da prancha, mas sem levantar bandeiras para o assunto. Mais atualmente, Andy Irons e principalmente Kelly Slater, tomaram gosto do modelo, popularizando as quadfin entre os surfistas. Mas porquê não deu certo com o Bocão? O mercado estava muito deslumbrado com a trusther para se abrir para novas ideias? Faltou algum grande surfista ou guru comprar o conceito? Bem, no mundo das invenções tem dessas coisas, muitas vezes uma inovação boa não está adequada a seu tempo, precisa maturar.

Mr X surfando uma quad, depois de Bocão...

segunda-feira, 16 de julho de 2012

A terceira quilha: sorte, destino ou perseverança?

Na primeira metade do século XX, um economista chamado Joseph Schumpeter definia a inovação como o signo da modernidade e combustível do capitalismo. A história recente do surf me faz pensar sobre estas inovações e o como são aleatórias. Isto porque costumamos pensar tudo de forma linear, como se as inovações fossem inevitáveis, destinadas a acontecer, quando na verdade são fruto de um conjunto de fatores casuais. Desde as Olo, usadas por reis havaianos, às modernas pranchas com alto desempenho, muito tem sido experimentado em matéria de design de surf, mas o que levou algumas destas experiências se transformarem em paradigmas?

Simon Anderson dropando com a Thruster

Até a década de 1960 houve um avanço nos modelos de pranchas de surf, com blocos leves, resinas resistentes e quilhas que permitiam um surf muito mais versátil, mas os anos 70 viriam com novas experiências bem sucedidas. Foi assim com as quilhas gêmeas e o shape consagrado do tetra campeão mundial Mark Richards que prevaleceu até 1980. Até esta data, ondas menores eram surfadas com biquilhas e ondas grandes com guns monoquilhas, mas o paradigma foi quebrado quando um surfistas e shapper criou as três quilhas gêmeas, e a pranchinha batizada de Thruster, se tornaria um padrão por mais de 30 anos, mantendo-se  o modelo predileto da maioria dos surfistas até hoje.

Thruster e as 3 quilhas 

O australiano Simon Anderson era um surfista profissional que dedicava parte do tempo ao design de pranchas. Da mesma linhagem de surfistas australianos lendários, como Net Young, Peter Drouyn, e David Humphrey, até final da década de 1970 Anderson havia conseguido boas colocações em campeonatos nacionais e no ranking do mundial, surfando principalmente em pranchas monoquilhas. Nesta época Mark Richards era o campeão absoluto do WCT (World Championship Tour), assim como o modelo biquilha desenvolvido por ele. Anderson, com mais de 1,8 metro de altura não se dava bem com as biquilhas, assim como em ondas pequenas, frequentes nos campeonatos. Em 1980, Anderson observou que uma prancha de seu colega Frank Williams tinha, além das duas quilhas convencionais, uma pequena quilha estabilizadora centralizado na parte de traz. Esta foi a solução ao desempenho das biquilhas, e Anderson Simon criou a Thruster, com 3 quilhas do mesmo tamanho dispostas de forma triangular. Era outubro de 1980.
Mas o modelo de três quilhas quase não foi notado. Em 1981 Anderson expôs sua triquilha em uma feira de surf em Orlando (EUA), onde foi motivo de muitas piadas. Em seguida, competiu sem muito alarde em Burleigh Heads (AUS) onde foi desclassificado e a Thruster pouco notada. Eis que inicia um dos campeonatos mais tradicionais da Austrália, o Rip Curl Pro Bells Beach e Anderson venceu a primeira bateria com suas triquilha Thruster, ainda sem levantar interesse.

Mark Richards marcou presença no Rip Curl  Pro Bells Beach

O segundo dia Bells Beach amanheceu em condições épicas, com ondas perfeitas de até 12 pés (4 metros) e um oponente dos mais difíceis, o havaiano de North Shore, Bobby Owens. Bobby surfava com um modelo gun monoquilha e Anderson com a novidade de três quilhas, a competição foi acirrada e todos mantiveram os olhos fixos nos competidores daquele dia memorável. A cada onda as opiniões se dividiam, mas por fim, a Thruster saiu da água mais campeã que o próprio Anderson. Naquelas condições, o sucesso foi instantâneo e todos vieram perguntar sobre a prancha inusitada de três quilhas  e seu bom desempenho. Foi exatamente este o dia que as triquilhas se transformaram no novo paradigma do surf.

Graças ao desempenho de de Anderson em Bells Beach as 3 quilhas ganharam reconhecimento

A inovação da prancha Thruster pegou e se manteve, graças a vitória de Anderson Simon. Mas e se ele não tivesse competido, ou o desempenhado dele naquele dia tivesse sido dos piores? E se as condições do mar não fossem tão perfeitas na famosa Bells Beach e ninguém notasse? As três quilhas teriam se tornado o paradigma das pranchas de surf por mais de 30 anos, ou seriam vistas como mais uma experiência excêntrica? Nunca vamos saber, mas isto me faz pensar que as inovações são essencialmente experiências, e o que faz elas se transformarem em paradigmas são situações totalmente aleatórias, sorte ou acaso. Depois que funcionam e se tornam inovação, parecem ter sido destinadas a acontecer.

Relato e fotos o lendário campeonato de Bells Beach de 1981 
Parabéns, caro Simom Andersom, pela prancha Thruster e por Bells naquele dia clássico de 1981!

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Surf com duas quilhas: a evolução das manobras.

Duas quilhas e muitas manobras.

Desde o surgimento das quilhas na década de 1930, iniciou-se uma sucessão de experiências com inúmeros desenhos variações no shape das pranchas. O surf sempre teve liberdade de criação, diferente de outros esportes elitizados ou com tradições rígidas, as mudanças faziam parte do objetivo de surfar boas ondas. As técnicas de construção das pranchas foram sendo aprimoradas e eis que surge uma inovação interessante na década de 1940: as quilhas gêmeas (twin fin)!

Durante muito tempo o surfista foi o principal construtor das suas próprias pranchas. Em garagens ou oficinas adaptadas, estes designers amadores desenvolveram quase tudo o que conhecemos hoje de pranchas e acessórios de surf. Foi neste contexto que em 1943, o lendário surfista-shapper, Tom Blake construiu o primeiro protótipo de pranchas biquilha que se tem registro na história.

Tom Blake (pés) e o primeiro registro de uma prancha de surf com duas quilhas (Havaí,  1943)

Poucos anos depois, em 1948, outro surfista e shapper de pranchas inovadoras, Bob Simmons, construiu uma série limitada de pranchas com duas quilhas. Simmons se inspirou livremente na publicação da época sobre engenharia naval (Naval Architecture of Planing Hulls, de Lynsay Lord, 1946) que trazia um modelo de casco de barco com duas elevações semelhantes a quilhas. Usando o conceito das construções navais, as pranchas com duas quilhas entraram para o repertório de shapper e surfistas .

Modelo biquilha de Bob Simons e...
...a inspiração da engenharia naval.
O conceito das quilhas gêmeas é simples, por serem mais próximas da borda, as quilhas dão maior estabilidade para a prancha fazer curvas fechadas, permitindo facilmente a troca de borbas, sem perder velocidade. Em 1955 o shapper californiano Dale Velsey inventou a butterfly fin, consistindo basicamente de duas quilhas fixadas numa mesma base. A ideia futurística da butterfly não foi isolada, os anos de 1950 e 1960 foram de cheios de experimentações, mas ainda sim, as pranchas monoquilhas prevaleceram com seu surf objetivo, seguindo linhas mais abertas. 



Butterfly: modelo experimentado nos anos 50 e 60.

Entre 1962 e 1964, outro surfista-shapper consagrado por suas invenções, experimentou modelos de monoquilha e biquilha com alto desempenho. George Greenought fez experiências de usar duas das velozes quilhas tuna na mesma prancha, inaugurando um novo status para as quilhas gêmeas.

Biquilha de George Greenough

Já no início da década de 1970, Steve Lis desenvolveu uma rabeta para sua prancha de keeboard (surf de joelhos) que permitia manobras mais seguras em ondas rápidas, devido o fato de a rabeta ser duas pin tail juntas (pin tail são rabetas de pranchas bem finas, boas para ondas grandes ou muito rápidas). Estava concebida a prancha fish tail, que parecem ter sido criadas especialmente para as quilhas gêmeas. A prancha fish e as duas quilhas ficaram populares quando em 1972, Jim Blear e David Nuuhiwa pegaram 1º e 2º lugar no campeonato mundial de surf em San Diego.

Prancha Fish de Steve Lis,  1975.
As pranchas biquilhas se tornariam quase uma unanimidade para ondas de menor porte durante a década de 1970 e início dos anos 80. Isto ocorreu por causa de outro lendário surfista-shapper: Mark Richards e a prancha que lhe daria quatro títulos de campeão mundial, entre 1979 e 1982. Durante os anos em que Mark Richards foi campeão mundial criou-se um paradigma: ondas pequenas eram para ser surfadas com duas quilhas e ondas grandes com pranchas do tipo guns monoquilha.

Shapes de Mark Richards (1975 e 1979), novo estilo de surf.
 As duas quilhas trouxeram uma evolução nas manobras do surf. Com materiais leves e designs sofisticados, as pranchas estavam se tornando mais velozes que a própria onda, e agora permitiam fazer curvas rasgando a superfície da água como nunca antes. Isto se deu até 1983 e veio outra inovação: as três quilhas. A prancha trusther, com três quilhas, desenvolvida pelo surfista Simon Anderson, mudaram novamente os conceitos e a forma de surfar. Mas isto é para outro post...

Marck Richards ganhou 4 vezes o mundial de surf com suas pranchas de duas quilhas.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

"Magic Sam" e a revolução das pranchas de surf da década de 60

Como dissemos, George Greenouh inventou a quilha flexível tuna (rabo de atum), que possibilitava manobras e alta velocidade, quando associou-se com outro shaper inovador chamado Bob McTavish e juntos conceberam a "Magic Sam". Sam foi a prancha que mudou o surf nas décadas seguintes, com o fundo em V (Vee-bottom), monoquilha e tamanho menor que o convencional (entre os longboards e shortboards de hoje).

Nat Young com a " Magic Sam"



No entanto, teve um terceiro responsável pelo sucesso desta prancha, o Australiano Nat Young. Em 1966, Young viajou para São Francisco para competir no mundial de surf com a pranchinha nova. Young não só ganhou o campeonato, mas fez história pela forma como surfava e fazia manobras. Até então, ninguém via tubos, rasgadas, cut backs e outras manobras na mesma onda antes da Sam.



Nat Young surfando para o filme "The Morning of the Earth"


Após os anos 60, todas as inovações das pranchas foram inspiradas no shape, na quilha e outros designs da revolucinária Magic Sam.


Magic Sam e o novo surf.

terça-feira, 19 de junho de 2012

Sobre quilhas modernas, barbatanas e a genialidade

Até o início da década de 1960 o surf tinha evoluído consideravelmente, com o surgimento de pranchas mais leves, menores, com boa flutuação, designs eficientes e as primeiras quilhas. Assim, os surfistas começaram a desenhar mais curvas nas ondas, entrar nos tubos (a tão desejada “green house”) e as vezes até sair de dentro! Eis que outro sujeito chega com inovações sem precedentes.

A prancha "Velo" abriu a porta dos tubos e do surf moderno

George Greenough é uma lenda viva! Este Californiano erradicado na Austrália foi mais um surfista que entrou para o hall da fama por suas invenções, idéias e estilo de vida. Ele construiu no final da década de 1960 uma prancha pequena (5’5, aproximadamente 1,5m) para surfar de joelhos, pois pensava eu assim teria maior mobilidade (considerando que as pranchas da época tinham 10 pés, aproximadamente 3 metro) e seria melhor para entrar no tubo. 

Greenough inovações simples e revolucionárias

A pranchinha de joelho (kneeboard) funcionou muito além das expectativas, e seu maior trunfo não era apenas o fato de ser pequena e leve, mas a inovadora quilha que possibilitava atingir maior velocidade, fazer curvas mais fechadas, entrar e sair do tubo. Esta prancha ficou conhecida como “Velo” e mudou o surf para sempre. A quilha de resina era flexível, inspirada na barbatana de peixes, especialmente do Atum. Não era apenas o desempenho desta prancha, mas o design deixava evidente a genialidade de Greenogh, simplicidade inspirada na natureza. Como ninguém tinha pensado nisso?




O surfista e inventor George Greenough, também é um cinegrafista que revolucionou os filmes de surf. Na década de 1960 e 1970 construiu uma câmera que se acoplava as costas, de onde registrou imagens e ângulos nunca vistos antes. Seus filmes mais famosos foram The Innermost Limits of Pure Fun e Crystal Voyager (veja abaixo). As imagens foram tão impactantes na época que acabaram sendo imortalizada pela banda Pink Floyd no disco Echoes e no filme The Endless Summer de Bruce Brown. (obs: procurem no youtube, imperdível!)

Crystal Voyager (1ª Parte) 

Tal como pessoas revolucionarias costumam ser, Greennough sempre foi um livre pensador. Sua família era rica e famosa nos EUA, no entanto, George dedica-se a uma vida simples voltada ao mar, e ficou famoso por nunca usar qualquer tipo calçado. Descalço, surfando de kneeboard, windsurfe, ou em sua famosa almofada inflável que, usando-a como bodyboard registrou muita das suas imagens mais famosas de ondas e tubo vistos de dentro, o cara não segue padrões. Além da famosa quilha de barbatana, suas pranchas e filmes, também desenvolve e constrói barcos e outros itens náuticos inovadores. 
Até onde se sabe, mora hoje em Byron Bay onde costuma ser visto surfando, velejando, pescando e fazendo jardinagem. Simplesmente genial...

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Inovação das quilhas: a perspectiva do tubo

A evolução das quilhas são um capítulo a parte! Longe de laboratórios, engenheiros ou softwares avançados, a coisa aconteceu naturalmente. Isto porque a maior parte dos surfistas construíam suas próprias pranchas, acrescentando novidades e fazendo experiências próprias. Os modelos que deram certo foram ficando. Foi assim com as quilhas...

O surgimento das quilhas possibilitou surfar novas ondas
Robert Wilson Simmons (ou Bob Simmons) foi um sujeito que marcou a evolução das pranchas, desenvolvendo as quilhas como conhecemos, além de experiências misturando materiais como madeira, isopor, fibra de vidro e resina. Simmons começou a surfar em 1940 em San Diego, Califórnia, e 70 anos depois passou a ser considerado o ”pai” das pranchas de surf modernas.

As inovações das pranchas de Bob Simmons tinham um grande intuito, conseguir entrar no tubo e ficar lá por mais tempo possível. A prancha mais famosa e que resume tal evolução é a “sanduiche”, do finalzinho da década de 1940, feita com bordas em madeira balsa, bloco de isopor com duas tábuas de compensado (daí vem o nome), uma quilha central com formato arredondado, e tudo selado com fibra de vidro e resina.





A II Guerra Mundial ocasionou uma aceleração em termos de tecnologia, principalmente na indústria petroquímica, surgindo novos materiais como resinas, colas resistentes a água, fibra de vidro, etc. E quem diria, um surfista que ganhava a vida construindo pranchas usou toda tecnologia fomentada pela guerra para desenvolver um esporte paz e amor!


Carro-residência de Simmons.

Simmons escapou da guerra por causa de um problema que teve na perna quando jovem e aproveitou a sua liberdade para viver na mais pura essência do surf. Ele morou por muito tempo dentro de um Ford velho, adaptado para dormir e armazenar frutas e comidas. Apesar do desprendimento com dinheiro e posses, Bob foi um sujeito muito dedicado, que estudou a influência de marés, correntes e swells, para entender melhor as ondas e descobrir lugares bons para o surf. Infelizmente ele morreu aos 35 anos surfando um swell dos grandes. 



A morte de Simmons foi uma grande perda para o esporte, mas ao menos é melhor morrer surfando do que matando gente numa guerra.

terça-feira, 5 de junho de 2012

A Invenção das Quilhas: movimento e direção

Até a década de 1930 o surf era restrito a poucos tipos de onda, pois quanto maior, rápida ou cavada, mais difícil manter a direção da prancha e evitar ser engolido pelo lip onda.

Fundo convexo fazia as vezes das quilhas
A estratégia dos construtores de prancha da época era fazer o botton convexo (fundo da prancha que fica em contato com a água), assim como o das canoas e embarcações maiores. Isto ajudava a manter uma linha reta na remada e na descida da onda, mas por outro lado, fazia a prancha desgarrar na curva ou perder velocidade. A ausência de quilha tornava impossível acompanhar a linha da onda, tomar velocidade e fazer manobras como as que fazemos hoje.

Experiência: fundo igual ao das canoas  


A perigosa quilha de metal, igual faca na manteiga













Em meados da década de 1930, dois surfistas da Califórnia procuravam meios para melhorar o desempenho das pranchas de madeira da época; um deles era Woody Brown, de San Diego, outro era Tom Blake, de Los Angeles. Mais tarde ambos entrariam para a história do esporte como surfistas, inventores e precursores surf moderno.

Estabilizador: a quilha da década de 1930 

Interessante foi que ambos não se conheciam, mas introduziram um estabilizador na rabeta, que possibilitou direcionar a prancha com maior precisão. Tom Blake levou a fama, mas tempos depois historiadores perceberam que foram ambos precursores das quilhas.
Os estabilizadores não eram como as quilhas de hoje, mas possibilitavam manter-se na linha da onda, afrente da espuma. O formato de barbatana das quilhas viria anos depois, com outras inovações, mas os precursores delas permitiram que novas ondas fossem exploradas e o surf avançasse enquanto esporte.  



Esta é apenas uma introdução à historia das quilhas. Tem muito mais por vir...