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quinta-feira, 22 de agosto de 2013

DESIGN E CULTURA BEIRA-MAR: hollowboards, a embarcação que virou surfboard

As Hollowboards são pranchas de surf ocas, feitas em madeira com a mesma técnica de construção de cascos de barcos ou da asa de aviões. Pode parecer estranho, mas há quase 90 anos era a mais alta tecnologia em pranchas de surf. Como tudo o que é verdadeiramente bom, esta pranchas voltaram com novos desenhos e técnicas, contrapondo-se a evolução tecnológica das pranchas de surf atuais. Estas pranchas são mais pesadas e valorizam o surf de linhas clássicas, além do trabalho artesanal do shaper-marceneiro e a beleza natural da madeira.
Foto: Henrique Menezes. Pranchas Siebert Woodcraft Surfboards.

O surf com pranchas de madeira como as hollows é uma experiência diferente, mas muito boa. As pranchas de madeira não costumam ter a alta performance que encontramos em pranchas “de petróleo” (poliuretano ou derivados), mas são embarcações com muita dirigibilidade que dão uma sensação diferente, a madeira deslizando na água é igual faca na manteiga. O interessante é que cada madeira tem uma densidade e um comportamento, fazendo dessas pranchas uma peça exclusiva que, com os devidos cuidados duram muito tempo. Como dizem os especialistas no assunto, a madeira é algo vivo e com manutenção correta pode durar séculos!


O vídeo da  Burnett Wood Surfboards mostra uma sessão de surf com dois modelos distintos das modernas hollows, deslizando nas ondas com faca na manteiga derretida.

 Os norte-americanos foram responsáveis por salvar o surf do esquecimento, no início do século XX, depois de uma rigorosa colonização dos ingleses e a catequização dos nativos havaianos, o esporte caiu em desuso no arquipélago. No entanto, também descaracterizaram algumas coisas próprias do surf havaiano, transformando uma atividade de lazer e contemplação em algo competitivo e de alta performance. Nos anos 30, o surf ainda era um esporte excêntrico,  mas ficava popular com a organização de clubes, campeonatos de remada a longa distancia, corridas e demonstrações publicas do surf nas ondas de Waikiki, Malibu e outras praias da Austrália e Europa.  As pranchas ainda eram as ancestrais Alaias, feitas de madeira maciça, chegando a pesar mais de 80kg dependendo do tamanho e da madeira.



Nos anos 30, um jovem salva-vidas californiano e atleta olímpico de natação, Tom Blake se interessou pelo esporte e passou a praticas o surf. Logo percebeu que a prancha de madeira maciça era muito pesada, mas principalmente, não tinha flutuação suficiente, tornando-a ainda mais pesada na água. Inspirado na estrutura da asa de um avião e técnicas simples de construção naval, criou um ou craftwooden surfboards, isto é, uma espécie de casco de barco  de surfar. Mudou-se para o Havaí e se tornou uma das maiores personalidade do surf no século XX. Blake continuou seus experimentos, aperfeiçoando as pranchas, sendo considerado um dos pioneiros no uso de quilhas em suas hollow boards.

 Na década de 1940 estas pranchas eram muito utilizadas, sendo adotadas como equipamento oficial do corpo de salva-vidas da Austrália. Mas o avanço tecnológico do século XX foi implacável, e as novas pranchas feitas com derivados de petróleo fizeram com que as hollows entrassem em extinção. Nos anos de 1990, enquanto o surf evoluía incessantemente observou-se uma retomada do interesse por modelos antigos e formas alternativas de surfar, surgindo espontaneamente uma comunidade de shapers-marceneiros pulverizados pelo mundo.



Hoje o surf em pranchas de madeira ainda é raro, assim como encontra-las à venda. O custo também é maior, pois levam muito mais tempo para serem feitas, envolvendo riscos no projeto. Existem fabricantes destas pranchas no Brasil, como o pessoal da Siebert Woodcraft, em Santa Catarina e A Flora em São Paulo. No entanto, outra experiência interessante para os mais bem equipados é construir uma prancha por conta própria, havendo centenas de vídeos tutoriais na internet. 
Um blog muito conhecido onde esta comunidade de shapers-marceneiros postam seus projetos e fotos das pranchas em ação é o  blog:
http://woodensurfboards.blogspot.com.br/. 

Outros endereços interessantes:

David Weber Surfboards
http://davidweber.com.br
A Flora
Siebert Woodcraft
Paul Jensen
Videos Tutoriais
http://www.youtube.com/watch?v=i-deo9CyrM0


sábado, 3 de novembro de 2012

Surf e novos paradigmas



Algo diferente vem acontecendo no mundo do surf, visível nas praias, dentro do mar e até descendo as ondas. Este mercado vem se profissionalizando desde a década de 1970, tornando-se um dos estilos mais populares na industria da moda, o surfwear. Junto disto vieram revistas de surf, campeonatos disputados entre atletas e marcas, além de uma significativa industria de turismo espalhada pelo mundo. Outro subproduto do esporte (talvez o mais rentável) é a imagem do surfista, que passou de rebelde e alienado, para para saudável e descontraído. Nos últimos 20 anos vimos acontecer a massificação do surf e pasteurização da sua imagem.

Por bastante tempo, surfista tinha só um estilo de se vestir, assim como as pranchas de surf eram de modelos limitados, longboard era coisa de velho e meninas no mar, só se fosse de body board. Bem, isto continua sendo o pensamento de boa parte das pessoas do meio, mas algumas coisas vêm indicando mudanças de tendências, ou uma maior flexibilidade no "mercadão" do surf. Vemos hoje todo tipo de prancha na água, mono quilha, biquilhas, as quadfins, mini simmons, alaias e por aí vai. Um dos precursores desse movimento foi o shaper australiano Tom Vegener.

Tom Vegener e a redescoberta do surf ancestral

Este é o nome do responsável por trazer de volta as tradicionais pranchas de surf alaia, feitas de madeira maciça, em um tempo em que todo surfista surfava com pranchas leves como espuma e com três quilhas.  Tom redesenhou as pranchas milenares e descobriu um novo surf, voltado essência do esporte. A ideia conquistou uma série de surfistas que passaram a produzir suas tábuas de surf, assim como faziam os antigos havaianos. O próprio Tom Vegener vende pranchas de madeira shapeadas ou apenas a tábua de madeira paulownia para o surfista shapear no seu estilo.



Shapers de alaia, Tiago Matulja, Kiko Horácio, Bernardo Sodré, Rodrigo Matsuda, 
Gregório Mattos entre os pioneiros do Brasil.

Todo o trabalho deste pioneiro está documentado no youtube em uma palestra chamada "Wood is good", em que ele conta as motivações, e o processo  de resgatar estas pranchas ancestrais, encontrar a madeira ideal e transforá-las em modelos novos, com designs funcionais.  








No Brasil já existem shapers-marceneiros especializados em alaias que, muito além da construção e reprodução de pranchas, possuem designs e estéticas muito bem trabalhados. O interessante é observar nesta nova corrente uma sofisticação muito essencial, diferente do estilo que vemos nas grandes marcas (é possível dizer que algo é ao mesmo tempo sofisticado e simples?). Assim como a busca por outros tipos de prancha de surf e experiências, percebemos uma vontade de se reinventar no movimento das alaias.
  
Para conhecer algum destes trabalhos, tendências e talentos nacionais veja a  Lasca Surfboards, a Umbe,   Aerofish e a Flora Ecoboard. 

Primeiríssima qualidade...

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Madeiras para contrução de prancha de surf

Nas ilhas polinésia, na costa do Atlântico e em vários cantos do mundo, as canoas nativas selaram nosso casamento com os mares. Um único pedaço de madeira navegável, canoas e pranchas são irmãs, feitas do mesmo material e princípios. No Havaí, os nativos construíam canoas capazes de atravessar um oceano, e como se não bastasse,nas pranchas de surf mostravam suas habilidades nas ondas fortes do arquipélago. No Brasil, uma enorme costa e os infinitos rios também eram navegados por canoas de todo tipo, tudo graças às muitas espécies de madeira e conhecimentos indígenas. Ao longo dos anos, o surf tem se beneficiado de diferentes tipos de madeira, cada uma com funções e histórias diferentes.


As madeiras possuem propriedades físicas, mecânicas, químicas, biológicas, mas vamos direto ao ponto. Uma das madeiras considerada mais leve é a balsa, com 160 kg/m³ e a mais pesada é o pau santo com 1200 kg/m³. Madeiras leves são porosas e normalmente possuem maior flutuação e flexibilidade, mas frequentemente absorvem umidade, empenam e estragam facilmente. Por outro lado, madeiras mais densas são mais duras, impregnadas de resina impedem que o sol, a umidade, fungos ou insetos estraguem ou empenem. A desvantagem é que são pesadas e não boiam tanto. Mas vamos às madeiras mais usuais para construção de pranchas de surf e suas histórias: 

Prancha alaia havaiana e canoa polinésia feitas com madeira koa

KOA (Havaí) - As pranchas de surf havaianas (papa heʻenalu), assim como as canoas ancestrais (waʻa), eram normalmente construídas com a madeira da arvore Koa (acácia koa). O nome koa significa coragem, e é bastante apropriado para suas funções náuticas. A koa é muito comum em todas as ilhas do Havaí, gosta das cinzas vulcânicas e cresce rápido. Com ela eram feitas as pranchas alaias (entre 2 e 3 metros) e paipos (entre 1 e 0,5m), reservadas às pessoas comuns. Porém, madeira boa para construir canoa não pode deixar na mão e tem que ser forte, por isso faz a prancha de surf mais dura e pesada. Conta a favor o fato de possuir alguma flutuação, e ser difícil de empenar e estragar com o mar e o sol constante, além de ser muito bonita. Quando as pranchas de surf passaram a ser feitas também nos EUA, as madeiras mais semelhantes foram às vermelhas. No entanto, os velhos nativos havaianos por muito tempo insistiam, nenhuma madeira vermelha se compara a velha koa para descer ondas. 


WILIWILI (Havaí) – Esta é a madeira que se faziam as respeitáveis Olo, pranchas de surf da nobreza havaiana. As pranchas reservadas aos reis e nobres, feitas com madeira da arvore wiliwili (Erythrina sandwicensis) chegavam a ter 6 metros de comprimento, eram muito finas e com fundo arredondado. A wiliwili é uma madeira bastante leve e com ótima flutuação. Pelas propriedades da madeira e design da prancha, a olo era um pranchão muito rápido, bom para entrar nas ondas havaianas com segurança. 


BALSA (América do Sul) – O Peru é lar do ancestral surf em canoas de junco, e usavam troncos de madeira balsa amarrados para construir grandes jangadas, conhecidas hoje pelo mesmo nome, “balsa”. Esta arvore cresce desde a América central até o norte do Brasil. Na primeira metade do século XX passou a ser usada, entre outras coisas, para construção de pranchas de surf, um marco na evolução do esporte durante a década de 30. A arvore Balsa cresce relativamente rápido, pode chegar a 30 metros de altura e não vive mais do que 40 anos. No entanto, os nativos peruanos usavam o tronco bruto da arvore, pois a seiva conservava a madeira. Para pranchas de surf, a madeira tende a encharcar, perder a flutuação e se desfazer, e por isso passaram a receber tratamento com vernizes e posteriormente com resina e fibra de vidro (glass). As primeiras pranchas com balsa eram mescladas com outras madeiras mais duras, acrescentando resistência ao conjunto. Hoje, graças ao desmatamento e aos aeromedelistas, custam muito caro. 



PAULOWNIA - Este é o nome popular de uma espécie de arvore nativa da China, Laus e Vietnã. A paulownia possui um crescimento muito rápido (aproximadamente 7m no primeiro ano), com inúmeras funções comerciais, tem sido muito usada como madeira de reflorestamento no Japão, Coreia e atualmente na Austrália, Esta arvore ficou conhecida como matéria prima para construção de pranchas de surf alaia graças as experiências do shaper australiano Tom Wegener, que se tornou uma referência na releitura das pranchas de surf primitivas, construindo alaias com novos designs funcionais. O uso recente da paulownia em pranchas de surf é devido o fato de misturar propriedades de leveza, densidade média e resistência (quase não empena), além de ser impermeável, não necessitando tratamento com resina (glass). Outra vantagem está no fato de existirem em abundância, pelo menos na Austrália e na Asia, diferente da balsa, difícil de encontrar. 


AGAVE – Esta tem sido uma solução encontrada recentemente para construção de pranchas de surf de madeira. O agave é uma planta que faz parte da paisagem do México, das folhas extraem o sisal (palha com inúmeras aplicações) e da seiva destilada, a tequila. O agave é uma espécie exótica, trazida ao Brasil para uso em paisagismo e produção do sisal, tornando-se espécie invasora. O ciclo da planta é de 6 a 7 anos, quando desenvolve grandes folhas pontiagudas, e no final da vida desenvolve um tronco que chega a 10 metros de altura de onde nascem as sementes. Depois de reproduzir, a planta morre e seca. Sobra o tronco com uma madeira que chega a ter densidade menor que a própria madeira balsa, isto é, muito leve. A produção de pranchas de surf com bloco de agave é pelo mesmo processo das pranchas de surf de poliuretano convencionais, devendo receber acabamento com resina epoxy. O uso do agave para fins náuticos (principalmente pranchas de surf) ainda é recente, mas o material mostra-se muito conveniente, visto que aproveita o subproduto de uma planta no final do ciclo. No entanto, ainda muito difícil de ser encontrada no mercado. 

No Brasil existem inúmeras espécies de arvores nativas, usadas pelos índios como embarcação e protegidas pelos primeiros portugueses, tornaram-se conhecidas como madeira de lei. Mas é preciso uma análise mais detalhada, e fica para outro post...

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

A quarta revolução das quilhas

Kelly Slater surfando Teahupoo com as novas quadriquilhas

Os últimos posts do blog Madeira & Água vêm fazendo um histórico do surgimento e evolução das quilhas. Desde os primeiros estabilizadores inventados por Tom Blake no final da década de 1930, que inspiraram os modelos de pranchas de Bob Simmon com uma ou duas quilhas que ajudariam surfistas a conquistarem as primeiras ondas maiores que 10 pés na década de 1950, ou o design das velozes TunFin (quilhas rabo de atum) de George Greennough na década de 1960 e profissionalização dos shapers nos anos 70, consagrando as pranchinhas de duas quilhas, graças ao campeão Mark Richards e finalmente a Thruster com três quilhas na década de 1980, que colocaram o nome de Simon Anderson para a história moderna do esporte. 


Mas o que faz um modelo ou design de prancha perseverar e outros parecerem experiências bizarras? Vantagens técnicas, sorte, perseverança dos shappers, ou o marketing das marcas de surf? A invenção das pranchas de quatro quilhas no início da década de 1980, o seu esquecimento e a volta triunfal nos últimos anos trazem esta duvida. Nos anos 70 havia uma a disputa dentro e fora do mar para encontrar o melhor design de pranchas,até a febre as pranchas de 3 quilhas entrarem em cena no início da década de 1980, tornando-se unanimidade. No entanto, outro modelo de prancha aparecia nos campeonatos de forma tímida e despretensiosa, as quadriquilhas ou quad fin. 

Bocão disputando campeonato com quatro quilhas no começo dos anos 80

O primeiro shapper a construir uma prancha com quatro quilhas não dá para saber quem foi, mas o brasileiro Ricardo Bocão foi sem dúvida o pioneiro da década de 1980 que desenvolveu pranchas de quatro quilhas e disputou campeonatos ao redor do mundo com elas, comprovadamente por fotos e matérias em revistas de surf (normalmente ironizando o “excesso” de quilhas). Mas o mérito foi para outro shapper e surfista profissional, o australiano Glenn Winton, conhecido como Mr X, famoso por seu estilo de surfar e por aparecer na final do mundial na década de 80 com uma quad fin, ganhou fama. Acho que já ouvi esta história antes, afinal quem inventou o avião foi Santos Dumon ou os irmão Wright? Todos dizem Wright, mas sabemos bem que foi Santos. O que se sabe é que Ricardo Bocão desenvolveu o primeiro modelo 1981, inspirado pela evolução da Thruster, passando a usar as quatro quilhas em campeonatos até 1983. O fato é que nem Bocão nem Glenn Winton conseguiram vender a ideia.

Bruce Mckee desenvolvendo quad fin nos anos 80 e 90.

Ao longo dos anos 80 e 90 outros shappers foram aperfeiçoando e desenvolvendo o modelo quadfin, mas sem muito sucesso. Na década de 1990, surfistas como Tom Curren e Tom Carrol, apareceram surfando quadriquilhas e elogiando a performance da prancha, mas sem levantar bandeiras para o assunto. Mais atualmente, Andy Irons e principalmente Kelly Slater, tomaram gosto do modelo, popularizando as quadfin entre os surfistas. Mas porquê não deu certo com o Bocão? O mercado estava muito deslumbrado com a trusther para se abrir para novas ideias? Faltou algum grande surfista ou guru comprar o conceito? Bem, no mundo das invenções tem dessas coisas, muitas vezes uma inovação boa não está adequada a seu tempo, precisa maturar.

Mr X surfando uma quad, depois de Bocão...