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sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

O trabalho, a praia e o ócio

Texto Madeira & Água publicado em: Surfguru , Surfari

Erik Abel

A semana foi dividida entre dias úteis para o trabalho árduo e final de semana para relaxar, certo? Talvez não. A maioria das pessoas condena a ideia de matar umas horas ou um dia inteiro de trabalho, aprendemos que não pega bem, não é “profissional”, atrapalha a rotina, a produtividade. Mas definitivamente não. 



Era uma terça feira com altas ondas no litoral e uma pilha de problemas na mesa, quando tive uma epifania. 


Eu já conhecia a teoria do “ócio criativo”, tinha lido outros “caras” que também falavam sobre tendências no mercado de trabalho e qualidade de vida, mas em um dia dos mais difíceis resolvi colocar toda a teoria em pratica. A semana já iniciava cheia e tediosa, e os colaboradores esperam soluções mágicas para problemas inerentes. Neste contexto recebo uma mensagem: bom swell, surfe de gala, estamos saindo agora, ultima chamada! 

Mas vocês sabem que fugir do trabalho pega mal, prejudica a imagem, a rotina, a produtividade. Nossa mente adestrada sente muita culpa estas horas. Mas certas horas, o mais produtivo é jogar tudo para cima e seguir a intuição. Fui!

Abandonei os problemas na cidade e parti para o litoral com dois camaradas. No caminho tentava entender o resquício de culpa, reflexo da nossa idolatria ao trabalho, como se fosse um templo sagrado e inviolável. O mantra quadrado das oito horas por dia, dos cinco dias por semana, das horas extras, o salário e o consumo desembestado. Na estrada, a caminho das ondas, eu resolvia as coisas mais emergenciais ao telefone e a lógica começava a se inverter. Afinal, o transito congestionado eram pessoas a caminho do trabalho, no mesmo horário, todos os dias, para fazer coisas que bastavam um telefone ou um computador com internet. Mas quem se preocupa com qualidade de vida, o importante são às oito horas, os cinco dias, as horas extras, e consumir o tempo perdido com tantas mercadorias inúteis. 

Enquanto entrava no mar não havia mais culpa alguma de abandonar a labuta rotineira, afinal, os problemas são meus, assim como o ócio. Sentado na prancha, o relógio marcava 11 horas e 15 minutos em ponto, quando deslizei morra abaixo a primeira onda da manhã, contente como uma criança no parque. De fato, anda difícil relaxar, os finais de semana são cheios de compromissos sociais e horários. Além disso, estamos cada vez mais on line, conectados, ao computador, celulares, assistindo TV, ouvindo radio, o fluxo de informações é contínuo, não paramos para ouvir nossos pensamentos. 

Remava de volta para o out side cheio de adrenalina e dúvidas. As tecnologias que poderiam nos ajudar a ganhar tempo para nos dedicarmos ao ócio, acabam nos consumindo. Será que se eu tivesse com um celular a prova de água, estaria lendo jornal ou preocupado com a previsão do tempo que ia mudar? Mas não, o ócio é a arte de viver o momento e sentir prazer consigo mesmo. Definitivamente perdemos a inteligência, veja bem, na hora de relaxar e dedicar-se às coisas realmente interessantes ficamos presos aos brinquedinhos eletrônicos e programas de TV. As pessoas que criminalizam a maconha deviam se concentrar nos vícios realmente graves, como a dependência de redes sociais, os aplicativos inúteis de celular, joguinhos imbecis, televisão burra, machismo, preconceito, refrigerante, Ajinomoto e gordura hidrogenada.

A tarde caia, o sol se punha e as ondas só melhoravam. Meus braços já estavam cansados, mas a mente estava sã. Enquanto remava para minha ultima onda percebi que havia ponderado todos os problemas daquela manhã e nenhum era realmente grave. Colocamos muita expectativa nas coisas, mas os bons trabalhos levam tempo, boas ideias pedem calma. É estranho sermos tão cobrados pela criatividade, por soluções inovadoras, por desenvolver bons conteúdos, se não temos momentos de puro ócio. Como ser criativo e ter boas ideias na labuta maçante do trabalho, recebendo informações inúteis e infindáveis? Tudo ficou lúcido naquele momento, de fato vivemos um tempo de conflitos entre um modelo obsoleto e ideias novas e transformadoras. Mas para romper com as velhas condutas não é fácil, tem que seguir a intuição e jogar tudo para o ar.

Foi uma terça feira memorável. Aquele swell trouxe boas ondas e a semana foi produtiva como poucas.

Para saber mais sobre o ócio vai umas dicas de leitura:

terça-feira, 19 de março de 2013

Significados do Surf – pt. 2: identidade visual

Qual a identidade visual do surf?

A imagem do surf é complexa demais para definições simples, mas um exercício para entender os seus apelos é muito bom para conhecer um pouco do que o esporte representa hoje. Alguém já disse antes que uma imagem vale por mil palavras, pois um esporte tão antigo possui uma infinidade de significados. Uma imagem pode expressar muita coisa, mas os significados do surf somos nós quem damos. Pensar em tudo isto ajuda a gente entender a época em que estamos e os valores em alta.

Para onde a imagem do surf te remete?Cartão postal, San Diego, California

Imagine uma descrição do paraíso na Terra, um cenário da vida no Edem. Eu diria uma ilha tropical, com natureza intocada, muito sol, pouca roupa e tempo livre para relaxar e surfar. Talvez a sua imagem destoa um pouco da minha, mas a descrição convencional do paraíso na terrestre é a mesma de Colobo sobre a América caribenha, ou dos primeiros europeus que chegaram as ilhas polinésias, na expedição do capitão James Cook no século 18. Especialmente no Havaí, os relatos falam de belíssimas paisagens, lindas mulheres, povo amistoso, sexualidade inocente e sem nenhuma repressão, além de muito surf e outras emoções vindas do mar. As cenas que os europeus encontraram nos trópicos, ficaram no imaginário da civilização moderna, ultrapassaram séculos e moldam-se aos nossos dias.
Visão do paraíso terrestre. 
Tela de Paul Gaugimn, Tahiti, século 19.

A vida dos antigos polinésios, assim como a dos surfistas modernos, tem uma grande dose de contemplação da natureza, um estilo costeiro de vida comandado pelo ritmo das marés. Mas por outro lado, estas origens também representam outro extremo, a aventura, o desafio à natureza selvagem; adrenalina, endorfina e juventude. Na verdade tudo coexiste no universo do surfe, mas a imagem muitas vezes podem parecer ambíguas: aventura X contemplação, ou antigo X moderno.
Emoção e natureza selvagem. 
Photograph by © LeRoy Grannis.

E não para por aí, o estilo de vida dos surfistas inaugurou uma estética ao longo do século XX que também tem forte relação com o passado. A relação com o corpo é marcante na construção da imagem do surf, uma liberdade nativa, contestadora e inocente. O shorts sem camisa dos caras e o pouco pano do biquíni das meninas chocaram muitas gerações, mas depois viravam tendência da moda. Depois dos anos 60 e 70, a industria da moda viu um grande potencial e se apropriou deste estilo sensual e arrojado. Hoje é um mercado consolidado e com muitos adeptos, dos quais grande parte nunca surfou na vida.
Sensual e inocente.
O apelo do surf nas revistas ao longo das décadas.

Em paralelo a moda, as pranchas de surf foram se transformando, sem uma intenção estética mas o intuito de descer ondas maiores e permitir manobras mais ousadas. Esta evolução preconizada por shapers profissionais entraram para vanguarda no design. Oras inspiradas em peixes, navios veleiros, aviões de guerra e formas do desenho industrial, as pranchas de surf possuem um apelo moderno e sexy dos carros esportes. O design estético e funcional das pranchas passa uma ideia de beleza e sofisticação.

Design de vanguarda e formas orgânicas.Foto retirada da campanha da marca Osklen, Coleção 2012

A busca do surfista por um estilo de vida alternativo também lhe rendeu imagens com diferentes conotações. A tribo da praia que contesta o mainstream deu origem à outras tribos urbanas. O surfe possuiu um apelo semelhante ao do Rock: a rebeldia. Mas no caso do surf a rebeldia é mais pacifica e menos ideológica, se manifesta como insolência, isto é, ignora certas regras e valores que não concorda sem fazer cara feia. Esta posição apolítica dos surfista também rendeu o esteriótipo de alienado e bon vivant, para não dizer vagabundo.
Rebeldia ou alienação?
Photo by Jef Divine. 

Esta imagem negativa vem mudando depois que emergiram outros valores no final do século 20, como o ambientalismo, a sustentabilidade, a harmonia com a natureza, a pratica de esportes radicais, etc. O surfista é visto como um sujeito convencional que trabalha, estuda e consome, mas cultiva um estilo de vida alternativo, mas com hábitos saudáveis. 

O mundo gira, os apelos mudam e o mercado se apropria das imagens de acordo com a conveniência. Mas muitos dos significados dados ao surf estão enraizados em valores antigos, visões de mundo que ora são tendência e outras perdem o apelo. O surf, muito além da imagem e do mercado, permanece como uma cultura beira-mar, independente e autêntica.


TEXTO DE REFERÊNCIA: Visão do Paraíso - Os motivos edênicos no descobrimento e colonização do Brasil. Sérgio Buarque de Holanda, 1959.

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Video: Manifesto Surfari

O vídeo é um trabalho dos camaradas e parceiros do Surfari, divertido, didático e muito esclarecedor!




Este filme é o resultado de estudos realizados pelo Surfari através de pesquisas acadêmicas e mercadológicas em dados primários e secundários.

O filme: Muito se fala sobre o surf mas pouco se sabe sobre essa atividade e seus adeptos. O fato é que nas últimas seis décadas o esporte/passatempo/estilo de vida se tornou um dos maiores influenciadores da cultura jovem no mundo. Os hábitos e o consumo dos praticantes, principalmente, dos consumidores aspiracionais formaram um mercado pujante, e isso se reflete nas manifestações culturais, nas prioridades e nos objetivos de quem orbita essa cultura.

O Surfari: Entre a parte baseada na web e a área de projetos, o Surfari visa oferecer soluções de comunicação para a cultura e os esportes. O site proporciona o relacionamento e entendimento do público que vive os boardsports, e esse diálogo gera projetos audiovisuais e editoriais que sejam relevantes para a audiência e as empresas. Somos, portanto, um tradutor deste público com o mercado.

Edição: Eduardo Linhares
Roteiro: Lucas Zuch
Narração: Tiago Masseti

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

O Surf Moderno e o Ancestral


Surf em pranchas Alaia e busca da identidade perdida.
Para quem não sabe, as pranchas de surf de madeira estão de volta. Elas voltaram de forma tímida nos anos 80 e 90 e agora estão se tornando comuns, mas ainda não populares. Alguns shapers-marceneiros começaram a construir modelos novos com técnicas e materiais modernos, criando uma rede de adeptos em todo o mundo. Talvez esta não seja uma tendência de mercado, mas o movimento tem crescido principalmente nas garagens e oficinas de surfistas amadores. Neste caso, amadores no sentido de pessoas que gostam muito de surf, pois a construção destas pranchas pode não ser coisa para principiantes, afinal são muito mais difíceis e artesanais do que as pranchas com blocos de poliuretano ou similares. Por este motivo também, preço de uma prancha de madeira pronta, pode ser muito maior do que a média das pranchas disponíveis no mercado.


As pranchas de surf de madeira ligam dois tempos, um muito antigo, repleto de técnicas e conhecimentos ancestrais e passados oralmente para a construção de pranchas, canoas e pequenas embarcações. Outra é a época atual, com grande acúmulo de tecnologias e designs avançados.Desta forma, um shaper de prancha de madeira precisa se informar tanto sobre as resinas e colas certas para o tipo de madeira, o design ideal para o modelo, como as técnicas e conhecimentos tradicionais, manhas de marceneiros, madeireiros e construtores de embarcações ancestrais. Mas o que motiva uma pessoa à construção de uma prancha em madeira, diante de um mercado tão rico em opções de pranchas? 

Primeiramente, comprar ou construir uma prancha de madeira não significa abdicar-se de surfar com pranchinhas de espuma e todas as vantagens das novas tecnologias, isto é, as pranchas de madeira costumam ser especiais para condições de mar específicas, de acordo com o modelo que foi projetada. As novas tecnologias de construção naval unidas com técnicas, materiais e designs de confecção das pranchas modernas permitem conceber modelos com desempenho muito próximo ao das pranchinhas atuais, surfando ondas grandes ou pequenas, cavadas ou gordas, com manobras ou clássico, de acordo com o seu tipo de surf.

Prancha de madeira tipo Hollow: primeiras inovações.
Outro ensejo é pelo fato de que todo surfista experiente um dia passa se interessar por outras formas de surf, faz parte experimentar outras modalidades, seja um longboard,SUP, Kite surf, ou em casos especiais aprender a pescar, velejar ou remar canoas em alto mar. Isto porque o surf não é um esporte isolado, mas uma atividade junto ao mar que não se limita a descer ondas. Para evoluir no esporte é necessário saber de vento, maré, meteorologia, hidrodinâmica, etc, e por isso, nada mais natural do que conhecer outras modalidades e sensações. As pranchas de madeira oferecem uma experiência única neste sentido, alguns projetos de prancha exigem destrezas de um caiçara em sua canoa ou um antigo polinésio.Finalmente, a vantagem da prancha de madeira é que,se bem construída e cuidada pode durar anos ou décadas, por isso devem ser muito bem feitas, pois não são descartáveis.

Novos modelos de prancha de madeira tipo Hollow: o ancestral e o novo.
Mas antes de empreender um projeto destes, ou despender um dinheiro para encomendar uma prancha de madeira, vale a pena pesquisar sobre os modelos, técnicas, etc. Existem as pranchas ancient que são cópias ou releituras das antigas alaias (tábuas, no idioma dos antigos havaianos), feitas de madeira maciça; hollowboards (prancha oca), com um esqueleto interno semelhante aos barcos, e uma infinidade de modelos híbridos, que unem técnicas novas e permitem desempenhos mais próximos ao estilo de surf moderno. Talvez, um dos melhores endereços para iniciar uma pesquisa sobre pranchas de madeira é o blog australiano Wooden Surfboards, onde shapers do mundo inteiro postam fotos e relatos de suas criações. 

Wooden Surfboard Day, em Gold Coast AUS, 
reúne shapers e surfistas construtores de prancha de madeira
Os próximos posts do Madeira & Água irão resgatar informações e técnicas da construção de pranchas de surf de madeira, assim como história e sabedorias dos artesãos de pequenas embarcações tradicionais. Acompanhem!