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quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Sobre Madeiras de Lei, Canoas e Surf

Texto Madeira & Água publicado em: Waves, Surfari, Surfguru
 

Resumindo, quando me meti a construir uma prancha de surf de madeira, descobri o universo perdido das canoas e das madeiras de lei. Além de histórias interessantes, acabei conhecendo algumas dicas sobre as madeiras brasileiras boas para canoa ou pranchas.

Canoa de um pau, shape mais básico do que este é o das pranchas de surf alaias.
A motivação de construir uma alaia vem de infância, umas paixões mal resolvidas, igual daquelas que não subiram a serra depois das férias. Neste caso especifico não se trata de uma menina, mas das “canoas-caiçara” do litoral paulista. Conhecidas como “canoas de um pau”, são uma das embarcações mais simples que tem, um casco esculpido em um único tronco. Invenção dos índios, apropriada pelos portugueses e depois caiçaras, significam a liberdade de qualquer menino (índio, caiçara ou veranista), sair flutuando, explorando, pescando ou descendo as ondas do canal. Fazer uma prancha de madeira e cair no mar com ela, me remete aquela sensação primitiva, essencial, de liberdade.

Na Papua Nova Guiné ainda se surfa como no antigo Havaí 
Logo, perguntei ao oráculo se existe alguma lista de madeiras brasileiras para uso náutico e a resposta da pesquisa veio me intrigar: “madeiras de lei”. Mas qual a relação com as madeiras mais ameaçadas e caras do mercado? Estas nobres recebem o nome de madeiras de lei, por suas propriedades náuticas!

Ribeira das Naus: tem madeira nossa aí.
A partir do século XVI, a coroa portuguesa passou a proteger algumas arvores brasileiras boas para construir embarcações, para uso exclusivo dos carpinteiros da “Ribeira das Naus”. Este era o grande estaleiro português, responsável pela construção das naus que desbravaram praticamente todos os mares. Lembrando que até meados do século XIX as embarcações de madeira eram estratégicas para qualquer país, visto que todo o transporte de pessoas, cargas ou mercadorias era marítimo ou fluvial.

Madeira de Lei, madeira nobre, madeira de mar.
A seleta lista de madeiras de lei era baseada na resistência à água e à maresia, assim como a estabilidade, facilidade de se trabalhar e durabilidade. Naquela época, as madeiras eram classificadas pelos usos que favoreciam, do tipo: Peroba, “boa para construção de quilhas e roda de proa”, Braúna, “forração de casco e convés”, Freijó, “quilhas e vigas”, Ipê “cascos, cavilhas, cunhas, e outras partes molhadas”, e por aí vai.
Aqui eu respondo o motivo destas madeiras serem caras e cada vez mais raras. Muito além das qualidades navais, a beleza das madeiras protegidas deixou-as vulneráveis a todo tipo de construção civil. Enquanto na Europa a madeira era apenas peça da estrutura dos edifícios, no Brasil a madeira também era parte da arquitetura, feita para embelezar, usada na estrutura, portas, janelas, pisos, acabamentos e armários. Assim, não adiantou decretos e ordenações do rei para proteção das arvores, elas foram usadas à quase extinção de espécies.

Releitura das pranchas alaias, ancestrais do surf
No entanto, para a construção das pranchas de madeira ancestrais, como as usadas no Havaí a centenas de anos, e outras versões adaptadas até os anos 50 nos EUA, variavam o peso, entre 40 kg e mais de 100 kg, dependendo do modelo e técnica de construção. Atualmente, as pranchas de surf de madeira são releitura das antigas alaias ou hollow boards (pranchas ocas), muito mais leves e com designs funcionais, pesam normalmente entre 3 kg e 20 kg. Neste quisito, as madeiras brasileiras adequadas para a construção naval possuem uma característica bastante seletiva para construção de pranchas: o peso. Madeira boa para água costuma ser densa e pesada, e por isso são impermeáveis e resistentes.
Levantando em conta uma lista com mais de 60 espécies de madeira de lei¹, talvez uma ou duas tenham leveza e flutuabilidade suficiente para estes fins. O intrigante é que são justamente aquelas usadas para construir pequenas canoas caiçaras, para uma ou duas pessoas, justamente por ser leve e mais fácil de remar. E então as paixões se unem, prancha e canoa levam a mesma carne, irmãs com shapes diferentes.
Cedro - Uma madeira unanime é o cedro vermelho, ou cedro rosa, cedro cru, redceder e cedre acajou. Pode ser considerada uma das madeiras mais importantes do país, unindo leveza, resistência à água, estável, fácil de trabalhar, bonita e ainda encontrada com relativa “abundância”. Mas veja bem, não confunda com o cedrinho,    madeira pouco mais pesada e e menos resistente com a umidade. 
Araucária e Vinhático - Outras opções “nobres” talvez sejam o vinhático e a araucária, são leves e resistentes à água. Mas estes são mais difíceis de encontrar, caros,  protegidos por lei. Evite, as matas agradecem.
Guapuruvu – Outra opção é o guapuruvu, arvore de crescimento rápido, não é nobre (isto é, não é tão bonita ou resistente), mas é usada para fazer canoas.
Estas são opções de madeira que não necessitam tratamentos com resina ou conservantes, bastando uma manutenção com óleo ou cera.
Outras madeiras e novas técnicas - Existem outras madeiras menos resistentes, como a caixeta e o agave. Estes casos são ideais para pranchas tratadas com resina epóxi, como o caso das técnicas de construção das hollow boards e pranchinhas convencionais de poliuretano.
Caixeta - Das brasileiras, a caixeta é leve, relativamente barata no mercado. No entanto, use com moderação, outra espécie em extinção, e não aguenta bem a umidade, precisa de glass, isto é, tratamento com resina. Evite.
As exóticas - Existem também as arvores exóticas, trazidas para servir a outros fins. Vou destacar duas alternativas muito boas para fazer prancha de surf.
Paulownia – Uma arvore da Ásia, levada para a Austrália e lá descoberta por um famoso shaper de pranchas alaias. Esta madeira é um grande trunfo das modernas pranchas alaias. Boa flutuabilidade e excelente resistência a água. Difícil é encontrar no Brasil, mas já tem gente plantando, pois faz concorrência com outras madeiras de lei (vai bem com água, já viu)!
Agave – Talvez seja a melhor opção hoje para construir uma prancha de surf. Quase tão leve quanto à balsa, é excelente para surfar, mas deve ser construída na técnica das pranchas de surf modernas, com glass de resina epoxy.  A dificuldade é para encontrar o agave no mercado convencional, mas volte e meia tem um aí dando moleza nas praças e quintais de vizinhos distraídos. O agave é planta exótica, trazida para jardinagem e para produção da palha de sisal. Se não é nativo das nossas matas, não é protegido, pode usar sem dó.

Em Portugal, Miguel Aragão exibe suas pranchas com bloco de agave

Mais informações sobre o assunto, veja o post Madeiras para Construção de Pranchas de Surf

¹ Para conhecer a propriedades de algumas madeiras de lei acesse: http://www.monumenta.gov.br/upload/Caderno%20Madeiraweb_1173383037.pdf

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Sobre Árvores, Madeira e Construção Naval

Estamos iniciando uma série de matérias que falam da construção de canoas e pranchas de surf de madeira numa perspectiva contemporânea, mas resgatando conhecimentos ancestrais da carpintaria e construção naval.
Para falar de pranchas de surf e canoas antes devemos antes citar a “pedra fundamental” da navegação, da conquista dos mares e tudo o que veio depois, isto é, a manipulação da madeira. A arte de manejar este recurso natural em técnicas de carpintaria, construção naval e marcenaria podem tomar ares míticos e exige todo o respeito, afinal é um ofício dos mais antigos, desde os nativos da Polinésia, África e América, aos hebreus (Jesus era carpinteiro), árabes, nórdicos e europeus, em todos os cantos do mundo existiram carpinteiros e marceneiros.
Em reverencia aos mestres na arte de manipular a madeira iniciamos a sessão de matérias sobre construção de canoas e pranchas de madeira resgatando algumas informações sobre escolha da arvore e preparação da madeira. Apesar destas informações não serem tão úteis nos dias de hoje, em que encontrar as arvores certas é uma missão dificílima e derrubá-las é crime, a matéria serve para lembrar culturas que estão entrando no esquecimento e foram as bases do surf, assim como da navegação.

Da arvore à madeira

A escolha da arvore se dá pela madeira, portanto, antes de escolher o indivíduo deve conhecer suas propriedades. Antes do corte de uma arvore para construção de qualquer embarcação, deve ser feita uma inspeção minuciosa, observando a superfície do tronco, procurando os nós, cicatrizes, fendas, ou fibras muito torcidas com e nós profundos. Batendo com algum objeto ao longo do tronco percebem-se variações do som, indicando diferentes densidades, possivelmente por motivo de doença ou apodrecimento prematuro. Após o corte outros sentidos também permitem certificar-sedo tipo de madeira, a fase de preparo e a hora de trabalha-las. A cor permite saber facilmente se a arvore teve alguma doença, devido mudanças bruscas, vista em um corte transversal. Cada espécie possui um cheiro característico, especialmente depois de seca.

 

A época ideal para extrair a madeira varia segundo a espécie e região, mas de forma geral costuma ser no início do inverno, assim que as folhas caem, quando acontece o repouso vegetativo. Estes procedimentos possuem relação com a circulação da seiva, pois nos meses de primavera, verão e princípio do outono os troncos ainda estão impregnados de alimentos para folhas, flores ou frutos, aumentando o tempo secagem e prejudicando a conservação da madeira, pois as substâncias que compõe a seiva atraem fungos e insetos. Outro fator que influencia o corte da arvore é a lua. As fases minguante e nova costumam ser melhores, os períodos de maré cheia está relacionado com maior quantidade de seiva nas arvores.



Após o corte é essencial à seiva secar completamente, assim como a retirada da casca, que dificulta a secagem e esconde larvas e insetos que corroem o tecido lenhoso. Para secagem existem muitas técnicas, atualmente o mais comum é ao ar livre, em galpões ou estufas, sendo que, mais importante que manter a madeira coberta é não deixa-la em contato com o solo. No entanto, para construção naval existem tradições muito eficazes na secagem da seiva que garantem grande durabilidade à embarcação. O costume é mergulhar o tronco em água doce (rios e lagos), ou na agua salgada do mar. O mais aconselhável é deixar no lodo das zonas estuarias (rios que desembocam no mar), evitando o apodrecimento prematuro ou o aparecimento de fendas. O mais espantoso são relatos de que, dependendo do tipo de madeira e espessura do tronco, a secagem poderia durar de 3 a 10 anos.

Produtos e cuidados para conservação da madeira

A durabilidade depende primeiramente da secagem da seiva. Sendo assim, a principal forma de tratamento da madeira é mantê-la seca e arejada ou totalmente mergulhada na água, pois madeiras imersas não apodrecem ou apodrecem muito lentamente. É muito comum encontrarmos ao longo do litoral brasileiro, canoas afundadas na água, pois rios, lagoas e principalmente o mar evitam o apodrecimento muito melhor do que os produtos disponíveis no mercado e sem custo nenhum.


Canoa em repouso, água conserva a madeira.
A água não estraga madeira, mas a constante mudança de ambientes secos para úmidos causam dilatação e contração da madeira, causando fissuras com o tempo. Dessa forma, o tratamento mais tradicional para canoas ou cascos de pequenas embarcações de madeira é com soluções oleosas ou ceras que evitam que a madeira encharque ou sequem completamente. Estes produtos podem ser de origem animal (óleos de peixe, cera de abelha), vegetal (cera de carnaúba, óleo de linhaça), ou mineral (betume, asfalto diluído em diesel, óleo queimado). Estes produtos são bastante eficientes para conservar embarcações rusticas, como canoas, mas necessita a madeira estar bem seca para a primeira aplicação.  

Nativo havaiano passando óleo de Kukui (óleo de nozes) na tradicional canoa polinésia.

Outras soluções industrializadas contribuem para conservação da madeira, como o alcatrão, alvaide, ACA, CCA, CCB, sais de cobre, cromo e arsênio aplicados em auto-clave, todos com boa eficácia e disponíveis no mercado. A aplicação dos produtos pode ser por imersão, pulverização, pincelagem, ou ainda banho quente-frio (madeira é aquecida por várias horas e depois imersa em solução que permite grande penetração e absorção a vácuo).Caso sua embarcação não seja uma canoa ou prancha de surf tipo Alaia, as madeiras com tratamentos industriais podem ser uma boa opção, pois óleos e cerras dificultam aplicação de resinas epoxy ou poliéster.

Colas e outros métodos de impermeabilização

Madeiras coladas podem desempenhar funções melhor do que tábuas maciças, por aguentarem maior flexão. A chamada cola de marceneiro é uma das mais antigas, conhecida também como cola animal é feita a base de pele, cartilagem e osso de animais. Vendida em pó, quando em banho-maria se torna gelatinosa e fácil de aplicar, e depois de seca fica dura e impermeável, penetrando nos tecidos da madeira. As colas sintéticas disponíveis no mercado para carpintaria naval é a Cascophen (resorcina-formol), que leva um catalizador no preparo e serve para qualquer tipo de ligação, incluindo-se imersas em água. Outra opção é o Epox (resina epoxida), uma das colas e resinas de isolamento mais eficaz da carpintaria naval, usadas proteger, colar e impermeabilizar desde cascos de barco a pranchas de surf, e por isso merece um paragrafo específico.


Prancha de surf de madeira com acabamento em epoxy.

O método mais conhecido de impermeabilização das modernas pranchas de surf de poliuretano são as resinas de poliéster, no processo que chamamos de glass (vidro). No entanto, as resinas poliéster possuem pouca aderência à madeira. Já as resinas epoxy são a melhor solução para impermeabilização das pranchas de surf de madeira, assim como os cascos de barcos, dando o mesmo acabamento do glass em poliéster e uma resistência ainda melhor quando aplicada com tecido de fibra de vidro. O tipo especifico de resina para construção de pranchas (existem muitas variações de resina epoxy e catalizadores) e a forma de uso fica a cargo dos fabricantes, vendedores ou shapers.


Lancha de madeira com acabamento em epoxy.

Para saber mais de construção naval, madeiras, colas e resinas, aconselhamos os seguintes links:

Madeira: Uso e Conservação
http://www.google.com.br/url?sa=t&rct=j&q=&esrc=s&source=web&cd=1&ved=0CCIQFjAA&url=http%3A%2F%2Fwww.monumenta.gov.br%2Fupload%2FCaderno%2520Madeiraweb_1173383037.pdf&ei=CEVXUJucEcWiqwG8vYA4&usg=AFQjCNHDqxfm_9hY2HwIcVJxruTXhaM77w

Inovação na Construção Naval e seus Compósitos – Caderno 1
http://content.yudu.com/Library/A1nf9l/Inovaonaconstruonava/resources/index.htm?referrerUrlhttp%3A%2F%2Fwww.ain.pt%2Findex.php%3Fmod%3Darticles%26action%3DviewArticle%26article_id%3D169%26category_id%3D70

Inovação na Construção Naval e seus Compósitos – Caderno 2
http://content.yudu.com/Library/A1nf9k/Inovaonaconstruonava/resources/index.htm?referrerUrl=http%3A%2F%2Fwww.google.com.br%2Furl%3Fsa%3Dt%26rct%3Dj%26q%3D%26esrc%3Ds%26source%3Dweb%26cd%3D10%26ved%3D0CI8BEBYwCQ%26url%3Dhttp%253A%252F%252Fcontent.yudu.com%252FLibrary%252FA1nf9k%252FInovaonaconstruonava%252F%26ei%3DR687UIarKuqx0QGkroD4Cw%26usg%3DAFQjCNEjNWzpabDTJ2aPI9Ftrknzcx9ffw