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segunda-feira, 1 de junho de 2015

Quem foi Duke Kahanamoku?

Duke foi um surfista que germinou a semente do esporte e do estilo de vida havaiano mundo afora, adaptando um esporte primitivo a uma áurea moderna. 



 Nascido em Honolulu em 1890, colecionou conquistas ao longo dos seus 78 anos de vida, transformando-se em referência no universo dos esportes aquáticos. Este puro sangue havaiano fez parte da geração que reinventou o surf ancestral, com a honrosa missão disseminar o esporte pelo mundo. Duke estava entre os membros do Outrigger Canoe and Surfboard Club, a primeira agremiação de surfistas, quando ainda cursava a escola. No entanto, ele e outros amigos consideravam este clube restrito e dominada pelos haoles estrangeiros. Em 1911, inaugurou o Hui Nalu, ou Clube das Ondas, para incentivar o surf entre nativos. Começava uma carreira como atleta e uma missão pessoal de divulgar o surf pelo mundo. Podemos dizer que foi muito bem sucedido.




Em 1912, Duke era um surfista e nadador conhecido localmente. O Havaí acabava de se tornar território norte-americano e o esporte era a ponte entre culturas tão distantes de um mesmo país. Naquele ano, o jovem nativo foi selecionado pela primeira vez para as Olimpíadas em Estocolmo, ganhando uma medalha de ouro e outra de prata. Podemos dizer que este foi o primeiro contato do grande público com o surf. Os jornais da época contavam a curiosa história sobre o havaiano que havia ganhado medalhas olímpicas para os EUA, e seus métodos exótico de treino, domando as violentas ondas do arquipélago polinésio. Ao longo de mais de duas décadas ganhou medalhas olímpicas e bateu tantos recordes que seria muito extenso a descrição de todos eles. 

No mesmo ano que ganhou a primeira Olimpíada começou a missão de cultivar a semente do surfe. Duke dedicou-se décadas ao surfe e aos esportes tradicionais havaianos, transformando aspectos da sua cultura, parte da civilização ocidental moderna.

Na década de 1920, quando se aposentava das competições, começa a atuar em filmes de Hollywood entre 1925 e 1967, atuando como personagens nativos ou como lenda viva do surf. Muito além das tradições, Duke também era adepto das inovações, e durante a década de 1930 passou a colaborar com Tom Blake, desenvolvendo shapes e as aprimorando as pranchas de surf e paddle boards, além de auxiliar na restauração de pranchas ancestrais.

Entre 1934 e 1960 foi eleito sheriff do condado de Honolulu, uma espécie de juiz local. Na década de 1940 lança uma das primeiras marcas de roupas de surf, com as típicas estampas havaianas.

Em 1965 foi criado o Duke Kahanamoku Invitational Surfing Championship, seleto campeonato realizado na lendária praia de em Sunset Beach no North Shore.

Enfim, não foi por um acaso que Duke Kahanamoku ganhou o título de pai do surf moderno, sendo o primeiro nativo que conseguiu se inserir no contexto do mundo contemporâneo, demonstrando com sucesso o valor da cultura ancestral polinésia. Morreu em 1968, consagrando-se como um dos grandes heróis havaianos e maior a referência do esporte no mundo moderno.

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

DESIGN E CULTURA BEIRA-MAR: Stand Up Paddle (SUP), e a reconciliação com as canoas milenares.



Caminhar sobre as águas não é tão só história bíblica, mas um arquétipo humano; o desejo íntimo de conquistar territórios insólitos das águas. Não por menos, o Stand Up Paddle (ou SUP) tem se tornado uma febre mundo afora nos últimos anos, seja entre surfistas e não surfistas.



Gerry Lopez surfando de SUP, na Indonésia. 


Em todos os cantos do globo, em áreas costeiras, rios e lagos, encontram-se vestígios de canoas e outras embarcações simples, usadas para transporte, travessias, pesca, explorações, guerras, aventuras ou lazer. Equilibrar-se em um tronco cavado, tábua de madeira, vime, ou coisa flutuante e remar: aí está a síntese de toda navegação. Conduzir uma canoa ou prancha foi uma atividade engenhosa que possibilitou a humanidade expandir territórios e habitar todos os cantos do planeta. O SUP traz de volta nossa relação com as embarcações mais simples, devolvendo uma antiga sensação de liberdade e conexão com o ambiente e a natureza.



Sem dúvida existiram inúmeras culturas profundamente ligadas à navegação em canoas, mas os povos polinésios possuem uma tradição muito significativa neste sentido e, não por menos, o esporte que conhecemos por SUP nasceu no Havaí. Para os antigos havaianos, o ato de deslizar sobre as águas era cheio de significados, sociais e espirituais, tratados com solenidade no que eles chamavam de Ku Hoe He’e Nalu, algo como: “remar, levantar-se e deslizar sobre as ondas”. Segundo relatos, o próprio Duke Kahanamoku e outros beach boys (o equivalente havaiano aos nossos caiçaras), que disseminaram o surfe mundo afora no comecinho do Século XX, podiam sair remando em suas pranchas com as próprias mãos ou com auxílio de remos. Sendo assim, a própria origem do surfe esta relacionada às canoas e ao SUP.
Local: Papua Nova Guine, Photo Sergei Uriadnikov, Site 1234RF.com. 
Na década de 1940, o norte americano erradicado no Havaí, John Zapotocky, incentivado pelos beach boys de Waikiki passou a navegar e surfar com auxílio de remos durante a década de 1940 e, mesmo com a popularização do surf em pranchões e pranchinhas, manteve-se fiel ao paddle. Hoje Zapotocky, um ancião com mais de 90 anos é conhecido como o “pai do SUP moderno”. No entanto, já é reconhecido o pioneirismo de dois brasileiros, Osmar Goncalves e Joao Roberto Hafers, os primeiros surfistas brasileiros. Segundo registros fotográficos e relatos de conhecidos, estes amigos construíram hollowboards (prancha oca de madeira) na década de 1930 e passara a remar com auxílio de remos e surfar no litoral de Santos (SP), antes mesmo que o pai do SUP.
Osmar Gonçalves, Santos, SP, década de 1930.
O surgimento do SUP como esporte popular, tanto para pegar ondas, como para a pratica de corridas, travessias, passeios e lazer, inicia-se na década de 1990 com surfistas havaianos. Nomes como Brian Keaulana, Rick Thomas, Archie Kalepa e Laird Hamilton desenvolveram pranchas e equipamentos, aumentando as possibilidades do esporte. Laird Hamilton teve um papel importante, disseminando o SUP como alternativa para descer ondas grandes, trazendo muitos veteranos ao esporte, como Mr. Pipeline, Gerry Lopez. Após o ano 2000, depois se serem levadas para Califórnia e se tornarem febre, as pranchas evoluíram para modelos especiais, seja a pratica do surfe, de corrida ou travessias, com funções específicas para cada uso.
Laird Hamilton. Photo Tim McKenna.
As pranchas para travessia ou corrida possuem um desenho com hidrodinâmica semelhante ao casco dos veleiros para evitar o arrasto, a influência das ondas e aproveitar força das correntes. Por isso, estes shapes costumam ser maiores, normalmente com uma única quilha, menos rocker (inclinação do bico e da rabeta), outline estreito, fundo curvo na parte da frente e uma espécie de quebra-mar no bico, mesmo princípio que vemos em algumas canoas caiçara. Já o shape dos SUP para surfe pode variar bastante, mas segue os mesmos princípios das pranchas ou dos longboards, com a diferença de serem maiores e com maior espessura, para ter a flutuação necessária. Os remos também possuem especificações segundo funções.


Equilibrar-se em uma prancha, acima da superfície da água, exige que corpo esteja rijo e junto com a prancha sigam o ritmo das ondas, agindo de forma conexa. O fato de se manter em pé também possibilita ver além da linha do horizonte, trazendo uma vantagem em relação aos surfistas deitados na prancha, fora a vantagem dos remos para se locomover. Por isto, aos poucos, vêm sendo debatidas boas condutas do SUP nas ondas.

Trindade-RJ, Década de 70. Foto Fausto Pires de Campos.
De qualquer forma, o Stand Up Paddle proporciona um exercício físico completo, equilíbrio, conexão com a natureza, contemplação, meio de transporte e lazer para qualquer idade. Nada que um caiçara, índio ou pescador não soubessem há muito tempo!
(para ver uma entrevista com John Zapotocky, o velhinho remador, acesse o link http://www.youtube.com/watch?v=aeKOenwJWHo)